O Currículo do CDF ― Apresentação

Você já deve ter ouvido falar da reformulação do Ensino Médio. O chamado “Novo” Ensino Médio prevê diferentes “itinerários formativos”, atendendo a uma reivindicação antiga de professores e estudantes. Quer dizer que você poderá escolher, em algum momento do início do curso (provavelmente ainda no primeiro ano), se você vai estudar, por exemplo, mais matérias de Ciências Exatas e Naturais ou de Ciências Humanas e Sociais – ou Educação Artística, Prática Desportiva, ou mesmo um curso técnico. Exatamente quais conteúdos serão ensinados em cada itinerário formativo é algo que vai ser definido pelos currículos elaborados pelas Secretarias Estaduais de Educação. Mas o Ministério da Educação elaborou uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que lista conteúdos mínimos que devem ser ensinados.

Acontece que a BNCC do Novo Ensino Médio acaba com as disciplinas separadas. Não vai ter mais aulas de Matemática, Biologia, História ou Literatura, mas os conteúdos dessas disciplinas todas serão misturados em disciplinas “mistas”. O que é um grande erro, porque cada uma tem seus próprios métodos de investigação da realidade, suas próprias teorias elaboradas ao longo de séculos, terminologias, etc. Ao misturar as disciplinas dentro de cada itinerário formativo, os conteúdos ficaram tão raleados, tão rarefeitos, que os novos livros aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), que são aqueles que as escolas públicas podem encomendar para o Governo Federal comprar para elas, pouco avançam além do nível dos livros do Ensino Fundamental 2. (Confira você mesmo: PNLD 2021 Objeto 1 e PNLD 2021 Objeto 2.)

Nos próximos anos, o Enem também terá que se adequar aos novos itinerários formativos do Ensino Médio, aos conteúdos recomendados da BNCC, e aos novos livros fraquíssimos do PNLD. Como as provas vão ficar ainda é uma grande incógnita, mas uma coisa é certa: mesmo os estudantes que tirarem boas pontuações no Enem não estarão preparados para encarar uma faculdade. Inclusive, é capaz das universidades começarem a abandonar o Enem como critério de seleção de ingresso de estudantes e voltarem aos seus vestibulares tradicionais. Aí elas poderão continuar cobrando os conteúdos e raciocínios que elas consideram pré-requisitos mínimos aos candidatos a seus cursos, mas que não serão mais ensinados no Ensino Médio, e os estudantes que se danem virem.

Nesse caso, as escolas particulares provavelmente complementarão o currículo com aulas extras, disciplinas separadas, livros tradicionais ou apostilas especiais. Mas as escolas públicas, com todas as dificuldades que já enfrentam, não poderão fazer o mesmo. E seus estudantes, em sua maioria pobres, ficarão ainda mais excluídos das melhores universidades. Isso é mais ou menos o que aconteceu com os famosos Instituto Militar de Engenharia (IME) e Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Ao longo do tempo eles não rebaixaram o nível de cobrança dos seus vestibulares pra acompanhar as sucessivas reformas do antigo Colegial Científico, depois Segundo Grau, atual Ensino Médio. Como resultado, somente quem consegue pagar caro um curso preparatório específico para os vestibulares desses institutos tem alguma chance de entrar.

O Novo Ensino Médio, daqui pra frente, servirá bem para a maioria dos estudantes, que encerrarão sua vida escolar nesta etapa, ou que se contentarão com uma faculdadezinha qualquer. (“Fábricas de diplomas” tem aos montes.) O/A estudante mais inteligente que a maioria, e que almeja um curso concorrido numa universidade conceituada, pública ou particular, mais do que nunca precisará estudar além, muito além, do que aquilo que será ensinado no colégio. Como a razão de ser do Guia do CDF é justamente dar subsídios a esta classe muito especial de estudante, resolvi propor uma iniciativa ousada: um “currículo alternativo” com o que eu considero importante que os estudantes CDFs aprendam não só pra entrar na universidade dos sonhos como também para aguentar o primeiro ano do curso.

Fazendo uma analogia, é como a diferença entre as aulas de Educação Física que são ministradas a todos os estudantes e o treinamento especializado para aqueles que desejam ser esportistas profissionais. As atividades leves que os estudantes fazem nas duas ou três horas semanais podem ser suficientes para evitar os males do sedentarismo e incutir neles o saudável gosto pela atividade física. Mas nem de longe são suficientes pra quem sonha ser jogador da seleção brasileira de futebol ou atleta medalhista olímpico! Estes precisam treinar em “escolinhas” especiais, bancadas por clubes renomados ou projetos sociais. Mas também, por outro lado, não faz sentido dar a todos os estudantes o mesmo treinamento de um aspirante a atleta profissional.

Pois com os CDFs é parecido. Eles não podem ter a mesma preparação escolar que a maioria dos estudantes. Porque a maioria não está disposta a ser o que os CDFs se sentem aspiram se tornar: cientistas, pesquisadores, ou no mínimo profissionais altamente qualificados. A formação escolar deles tem que ser diferenciada: a eles tem que ser ensinado, e deles tem que ser cobrado, muito mais do que à/da maioria dos estudantes. Em suma, o estudante CDF tem que ser tratado como um atleta do conhecimento, e estimulado, inclusive, a participar de Olimpíadas de Ciências.

O Currículo do CDF que aqui proponho, é isso: minha sugestão sobre o que estudantes de alto desempenho e autodidatas precisam aprender para ingressarem, e permanecerem, nos cursos mais concorridos das melhores universidades. Será apresentado por áreas do conhecimento, algo semelhante aos tais “itinerários formativos” do Novo Ensino Médio.

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