Mudando Hábitos e Fazendo Sacrifícios

Você sabe identificar uma oportunidade quando vê uma? Acha que é como? Um cavalo manso, treinado, ferrado, selado e arreado, que vai chegar até você e se agachar pra você montar nele? Nada disso! Uma oportunidade, muitas vezes, é um cavalo chucro, bravo, arredio, selvagem, indomado, que vai passar em disparada na sua frente! E você terá que correr e se jogar em cima dele, agarrar em sua crina, em seu lombo, enquanto ele pula e escoiceia alucinado pra te derrubar. Vai ter que ficar em cima dele até que ele canse e desista, e aceite sua dominação. Só então ele vai te levar aonde você quiser. Isso sim é uma oportunidade!

Por que digo isso? Porque cansei de ver, ao longo da vida, gente cheia de planos e sonhos, projetos e ambições, mas que nunca passaram disso, sonhos e ambições. Quando paravam para fazer um balanço de suas (poucas) realizações, geralmente em seus aniversários ou nas viradas de ano, atribuíam suas frustrações às dificuldades encontradas, ou à “falta de oportunidades”.

Não prestou vestibular porque não poderia se mudar para a capital do estado pra cursar a graduação. E nem procurou saber se a mesma faculdade não oferecia cursos à distância no interior. Ah, tinha sim, mas era em outra cidade, distante uma hora de viagem — muito “longe”…Depois, teve aquela oferta de emprego. Mas era meio período, sem carteira assinada, pagava uma merreca… Nem fez as contas pra saber que o salário era a conta de pagar o preço da mensalidade daquele curso técnico. Ah, mas não ia sobrar nada pra balada…

Essas pessoas tiveram, sim, oportunidades de correr atrás de seus sonhos. Mas desanimaram diante das dificuldades. Não quiseram nem arriscar. Ficaram esperando o cavalo manso. E por isso, nunca saíram do lugar.

A verdadeira oportunidade, o cavalo chucro, é isso: requer esforço, sacrifício, abdicação, ralação. É abrir mão de muita coisa: do conforto, da segurança, das facilidades. É encarar os medos, enfrentar o desconhecido. Significa deixar tudo o mais em segundo plano. Adiar prazeres e antecipar dores.

O maior desafio que você enfrentará nos próximos anos será a mudança de hábitos. Essa é uma das coisas mais difíceis para os humanos, mudar o seu cotidiano, o seu jeito de fazer as coisas, para alcançar um objetivo relativamente distante no tempo.

Pra começar, você vai ter que mudar sua postura em relação à aquisição de conhecimento. Um dos maiores defeitos do nosso sistema de ensino é que ele condiciona os estudantes a sentar em suas cadeiras e esperar passivamente pelo conhecimento transmitido pelos professores. O resultado disso é que somente quando os professores são excelentes e os recursos didáticos que eles têm a disposição excepcionais, os estudantes conseguem chegar a um nível ótimo de domínio das matérias ensinadas. Mas você deve se programar para o pior cenário, que é você ter professores tão ruins ou com tão poucos recursos didáticos que você não vai aprender muita coisa com eles.

Então, a primeira coisa que você tem que fazer é romper esse maldito condicionamento que faz você esperar pelo que o professor vai ensinar em sala de aula, fazer somente os deveres que ele passar para casa, os trabalhos que ele disser que “valem ponto”, estudar só nas vésperas das provas, todas essas coisas. Você vai ter que se acostumar a estudar as matérias antes do professor as ensinar, a fazer os exercícios que ele não passou, a memorizar os principais conceitos fora da época das provas.

Mete isso na sua cabeça: lugar de estudar não é no colégio, é em casa. Claro que tudo o que você aprender no colégio, com seus professores, será um acréscimo muito bem vindo. Mas o ideal é que a maior parte do conteúdo programático do Ensino Médio você aprenda estudando sozinho. Nas aulas você deve tirar dúvidas e fazer mais exercícios para fixar os conteúdos.

Você vai descobrir que o tempo dos estudos vai competir com o tempo de outras atividades. Bem, você não pode e não deve reduzir significativamente o tempo que você dorme, ou o tempo que você come, ou o que você toma banho, ou que você passa na escola, ou que pratica um mínimo de atividade física.

Então, você vai ter que converter em tempo exclusivo de estudos o tempo que você costuma gastar em atividades fúteis, como ver filminhos do YouTube, assistir séries no Netflix ou jogar videogame. Não é razoável, para quem pretende ingressar numa universidade renomada, perder mais de uma hora por dia com essas coisas. E não é uma hora para cada uma dessas atividades (aí seriam três horas no total, espertinho), mas uma hora para todas elas, juntas ou separadas.

Mas mesmo essa horinha diária de distração é um luxo que só quem estuda num colégio de tempo parcial e não trabalha pode usufruir. Se você estuda num colégio de tempo integral, ou se tem que trabalhar, esquece. Todo o seu tempo livre, em casa, terá que ser passado estudando!

Os dias em que você não tem que ir ao colégio ou ao trabalho (sábados, domingos e feriados) são quando você pode se distrair mais. Mas você não deve apenas se divertir nesses dias; o ideal é encontrar um equilíbrio entre estudo e diversão. Por exemplo, você pode estudar no sábado de manhã e de tarde, e sair pra balada à noite. Domingo, pode descansar de manhã, estudar à tarde e ir à igreja de noite.

Mas se você tem pouco tempo pra estudar durante a semana, porque trabalha e estuda, ou leva muito tempo dentro de condução pra ir pra escola, então não tem outro jeito: você terá que passar a maior parte dos seus fins de semana e feriados estudando.

A propósito, sabe qual é a melhor época para estudar? Nas férias! Isso mesmo, as férias não devem ser o período em que você não estuda, mas quando você estuda mais!

O conceito de férias foi inapropriadamente trazido do universo do trabalho para a realidade do ensino. Em qualquer trabalho, seja braçal ou intelectual, você usa os conhecimentos e a experiência que já tem para realizar tarefas que muitas vezes não são agradáveis ou não fazem sentido para você, mas são parte das atribuições que constam do seu contrato de trabalho. Não raro, você tem que trabalhar junto com ou subordinado a alguém que você não suporta, “não vai com a cara” ― e que sente o mesmo em relação a você. Tudo isso causa um desgaste físico, mental e emocional que torna imprescindíveis os períodos de folga: curtos e frequentes, como os fins de semana, ou mais longos e infrequentes, como as férias e licenças, para o trabalhador se recuperar.

Mas quando você estuda é diferente. Você tem que se esforçar sim, mas é para adquirir conhecimentos e desenvolver habilidades que poderão lhe ser úteis no futuro. Você está cultivando o seu cérebro, aprimorando a si mesmo! E todas as evidências da Neurociência mostram que esse processo de autoconstrução é tão mais eficaz quanto mais continuado for, isto é, menos e mais curtas interrupções tiver. Não há nada capaz de prejudicar mais o aprendizado de um estudante do que ficar dois, três meses sem pegar nos livros! Quando volta, parece que demora pro cérebro “pegar no tranco”: o raciocínio está lento, a memória está fraca, muita coisa que já tinha sido aprendida foi esquecida.

Sim, os seus professores, como quaisquer trabalhadores, precisam de férias. (Embora seja bastante discutível se realmente precisam do triplo do tempo de férias que a maioria dos outros trabalhadores têm direito. Mas deixa isso pra lá, não vem ao caso agora…) Mas você, na condição de estudante, não precisa. Se você, em algum momento, se sentir esgotado a ponto de não conseguir mais ler uma página sequer, é porque você está fazendo algo errado. Não está sabendo respeitar os limites do seu corpo e do seu cérebro.

A propósito, eu falei mais acima de conhecimentos e habilidades que poderão ser úteis no futuro. Mas é evidente que nem você, nem seus pais, nem seus professores, nem ninguém tem como saber, de antemão, se determinado conhecimento ou habilidade realmente lhe será útil em algum momento. Então, pare de perguntar pro seu professor para que você tem que estudar isso ou aquilo. Isso é você que vai ter que descobrir!

Resumindo: você terá que estudar nas horas de folga, nos dias de folga, nas noites de folga, inclusive nos sábados, domingos e feriados, e nas suas férias inteiras. Se você não estiver disposto a fazer esses sacrifícios, pode esquecer, que você nunca vai entrar numa boa universidade.

Treine enquanto eles dormem.
Estude enquanto eles se divertem.
Persista enquanto eles descansam.
E então, viva o que eles sonham.

(Provérbio japonês.)

4 comentários em “Mudando Hábitos e Fazendo Sacrifícios”

  1. Serjão estou na 2° série do ensino médio, a escola que eu estudo é quase mediana, alguns professores são até bons. Porém eu não entendo muita coisa (ainda mais nessas aulas onlines) então tudo que fiz ano passado e até agora foi fazer tarefas, ganhar nota e passar de ano. Conheci seu trabalho agora, e vendo suas publicações comecei a refletir sobre sair da escola e passar a estudar de maneira autodidata e depois concluir o ensino médio por Encceja. O que você acha? Poderia me dar algum concelho ou orientação?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, “Só quero aprender”. Em tese, o seu plano pode dar certo. Mas há vários fatores a considerar.

      Primeiro de tudo, você precisa ter bastante confiança de que consegue estudar (e aprender) de maneira autodidata. Exige bastante disciplina e perseverança. Não são todos os estudantes que conseguem, ainda mais na adolescência. Tem muitas coisas a competir pela atenção mesmo de quem tem “todo o tempo do mundo” pra estudar. (Esportes, games, séries, redes sociais, namoro…) Uma das vantagens da escola é que, pelo menos o período que você passa em sala de aula, ou fazendo os trabalhos escolares em casa, nem que apenas pra garantir nota, você não pode fazer outra coisa senão estudar. Mas se o tempo que você passa estudando não está servindo pra você aprender, não adianta muito…

      Segundo, se você for menor de idade, vai ter que convencer seus pais de que sair da escola é uma boa. Para eles, estudar fora da escola pode parecer não fazer sentido nenhum. E obter uma certificação de Ensino Médio pelo Encceja é uma alternativa pouco conhecida. Embora seja perfeitamente legal, pode parecer a eles que tem alguma mutreta aí, ou que o certificado obtido pelo Encceja não tenha a mesma validade que o obtido na escola. E mesmo que você consiga convencer seus pais, isso pode trazer problemas para eles com o Juizado de Menores. Eles podem ser acusados de “abandono intelectual de incapaz” por tirarem você da escola.

      Terceiro, há coisas que se aprende na escola que não estão nos livros. Competir, cooperar, colaborar, conviver, tanto com “iguais” (estudantes) quanto com “superiores” (professores, diretores); respeitar regras sabendo o porquê delas, questionar regras que não fazem sentido… Toda uma série de habilidades e competências socioemocionais que vão além do conteúdo programático, e que serão importantes para toda a vida! E este é lado mais perverso, para os estudantes, dessa pandemia, que obriga vocês todos a ficar fora do ambiente em que podem aprender e aperfeiçoar essas habilidades todas.

      Então, meu conselho para você, se você for menor de idade, é que continue na escola. Apenas não se limite aos trabalhos escolares e às aulas online. Estabeleça para você uma rotina paralela de estudos, usando os livros e os roteiros daqui do Guia do CDF. Com isso, você vai desenvolver sua capacidade de estudar e aprender de maneira autodidata, enquanto mantém o vínculo, ainda que precário, com a escola.

      Só opte pela via do Encceja se você já for maior de idade. Aí, realmente será mais proveitoso ficar por conta própria. Seu tempo e seus esforços renderão mais.

      Bons estudos!

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      1. Obrigado por responder! Não havia pensado muito nas questões da lei.

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