O Novo Ensino Médio

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Papo sério, agora. Coisa grave! Você já deve ter ouvido falar da reformulação do Ensino Médio. O chamado “novo” Ensino Médio prevê que diferentes “itinerários formativos”, atendendo a uma reivindicação antiga de professores e estudantes. Quer dizer que você poderá escolher, em algum momento do início do curso (provavelmente ainda no primeiro ano), se você vai estudar, por exemplo, mais matérias de Ciências Exatas e Naturais ou de Ciências Humanas e Sociais – ou Educação Artística, Prática Desportiva, ou mesmo um curso técnico. (Exatamente quais itinerários formativos serão ofertados ficará a cargo das Secretarias Estaduais de Educação, no caso das escolas públicas, ou de cada escola, no caso das particulares.)

Exatamente quais conteúdos serão ensinados em cada itinerário formativo é algo que vai ser definido pelos currículos elaborados pelas Secretarias Estaduais de Educação. Mas o Ministério da Educação, do Governo Federal, elaborou uma Base Nacional Comum Curricular que lista conteúdos mínimos que de em ser ensinados, e inclui também o que chama de “habilidades e competências” a serem desenvolvidas pelos estudantes. (São conceitos meio vagos, que dizem respeito a como os estudantes devem ser capazes de usar aquilo que aprenderam.)

Educadores (não só os professores que dão aulas de fato, mas também acadêmicos que estudam as teorias e técnicas de ensino e aprendizagem) divergem sobre se esta é ou não a melhor forma de se fazer as coisas. Mas o que muitos têm apontado como um erro grave da BNCC do Novo Ensino Médio é que ela acaba com as disciplinas separadas. Não vai ter mais aulas de Matemática, Biologia, História ou Literatura, mas os conteúdos dessas disciplinas todas serão misturados de uma maneira que chamam de interdisciplinaridade.

De fato, havia uma crítica antiga sobre o fato de as diversas disciplinas da escola raramente se ligarem entre si, mesmo quando tratavam de assuntos relacionados no mundo real. Por exemplo, o aquecimento global e as decorrentes mudanças climáticas é um tema bastante complexo, que diz respeito à Física, à Química, à Biologia, à Geografia e à História. A proposta de interdisciplinaridade era justamente para que os professores de diferentes disciplinas trabalhassem em conjunto na hora de ensinar esses temas. Mas daí a eliminar completamente as distinções entre as disciplinas é um exagero. Afinal, cada uma tem seus próprios métodos de investigação da realidade, suas próprias teorias elaboradas ao longo de séculos, terminologias, etc. Não dá pra por tudo no mesmo balaio!

É claro que os livros didáticos também terão que se adequar à BNCC. Se você quer saber como eles ficarão, veja nestes links: PNLD 2021 Objeto 1 (edocente.com.br) e PNLD 2021 Objeto 2 (edocente.com.br). São esses que as escolas públicas terão que encomendar pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), e que servem de referência também para as escolas particulares. Não se deixe iludir com as cores alegres e os jovens sorridentes das capas. Eu examinei esses livros e, em termos de conteúdo, não vão muito além dos livros do Ensino Fundamental 2. Em bom Português, são uma porcaria!

Esses livros exageram ao atender uma outra crítica que se fez desde sempre ao Ensino Médio, de ser muito “conteudista”, quer dizer, exagerar na quantidade de disciplinas e de assuntos dentro de cada disciplina. Mas é um problema que se resolveria ao se separar os itinerários formativos e também ao se “podar” um ou outro assunto dentro de determinadas disciplinas. Mas ao se misturar as disciplinas dentro de cada itinerário formativo, sob o pretexto da interdisciplinaridade, os conteúdos ficaram tão raleados, tão rarefeitos, que os estudantes ingressarão nos cursos universitários sem saber o mínimo para acompanhar as disciplinas mais básicas do primeiro ano de qualquer graduação!

Nos próximos anos, o Enem também terá que se adequar aos novos itinerários formativos do Ensino Médio, às habilidades e competências da BNCC, e à interdisciplinaridade do PNLD. Como as provas vão ficar ainda é uma grande incógnita, mas uma coisa é certa: mesmo os estudantes que tirarem boas pontuações no Enem não estarão absolutamente preparados para encarar uma faculdade. Inclusive, é capaz de as universidades progressivamente abandonarem o Enem como critério de seleção de ingresso de estudantes e voltarem cada vez mais aos vestibulares tradicionais, ou a outras formas de seleção, como a avaliação seriada.

Escolas particulares ainda poderão preparar seus alunos oferecendo disciplinas separadas em complemento aos estudos “interdisciplinares”, usando livros tradicionais ou apostilas especiais. Mas as escolas públicas, muito provavelmente, ficarão restritas ao “arroz com feijão” da BNCC e dos livros aguados do PNLD. E seus estudantes, em sua maioria pobres, ficarão ainda mais excluídos das melhores universidades, seja porque o Enem deixará de ser usado por elas para selecionar estudantes, seja porque os vestibulares delas continuarão “conteudistas” como antes e só os estudantes de escolas particulares estarão preparados para encará-los, ou seja porque, mesmo que os estudantes de escolas públicas consigam ingressar em cursos universitários, terão muita dificuldade de acompanhar as aulas no primeiro ano e acabarão desistindo do curso.

Então, caro CDF, se você quiser realizar seu potencial acadêmico, usar sua inteligência para melhorar de vida, mais do que nunca você terá que ser autodidata. Daqui pra frente, terá que encarar a sua escola meramente como um lugar que você terá que frequentar para obter um certificado de conclusão de Ensino Médio, mas que não vai te preparar nem para conquistar uma vaga na universidade, nem para cursá-la com proveito. Todo o conhecimento necessário para alcançar este objetivo você terá que adquirir sozinho. Você está por sua conta agora. O sistema educacional brasileiro desistiu de você!

Com o Guia do CDF, porém, você sempre poderá contar.

Marvin, agora é só você!
E não vai adiantar,
Chorar vai me fazer sofrer.

Marvin, a vida é pra valer!
Eu fiz o meu melhor,
E o seu destino eu sei de cor…

(Marvin, Titãs)

4 comentários em “O Novo Ensino Médio”

  1. Putz…ainda bem que eu estou terminando o 3º ano do ensino médio. Que triste ver o que o ensino brasileiro esta se tornando, inclusive Serjão eu queria saber como começar a me preparar para o ITA, tens alguma recomendação de onde começo(sites ou livros e etcs) ? Estou perdido hehehehe

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    1. Pois é, Henrique, triste mesmo. Quanto ao ITA, veja a resposta que dei ao comentário do David na postagem “Todos os Livros da Estante do CDF Estão Aqui”.

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