A Iniciativa OpenStax

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Se você leu postagens e comentários antigos aqui no Guia do CDF, deve ter encontrado várias menções e recomendações aos livros da inciativa OpenStax, da Rice University, como alternativa acessível e de ótima qualidade aos livros didáticos brasileiros. Mas eu não tinha escrito ainda uma postagem só sobre eles; bem, chegou a hora! Em especial, vou tratar aqui de uma questão que vira e mexe os leitores me fazem: Dá pra se preparar pro Enem usando somente estes livros?

A resposta mais objetiva é: para Ciências Exatas e Naturais, sim; para Ciências Socias e Humanidades, não. Língua Portuguesa e Língua Estrangeira também ficam de fora. A resposta longa trata, claro, de descrever as características dos livros de Matemática e Ciências da OpenStax que tornam eles superiores a praticamente tudo que se faz no Brasil, em termos de livros didáticos! E de como utilzá‐los da melhor maneira possível, tendo em vista as diferenças nos objetivos que eles originalmente visam atender e as necessidades dos estudantes brasileiros que querem entrar numa universidade.

Primeiro, tenho que explicar um pouco das peculiaridades do sistema estadunidense de acesso às universidades, que é bem diferente do brasileiro, e dentro do qual a iniciativa OpenStax foi pensada. Não vou aqui discutir prós e contras desse sistema, muito menos se algo semelhante poderia ser implantado no Brasil, vou apenas descrever, muito grosso modo, como as coisas são, pra você entender como o OpenStax se encaixa.

Nos Estados Unidos, existem duas provas que são obrigatórias para quem quer ingressar no Ensino Superior: o SAT (Scholastic Assesment Test ― Teste de Avaliação Escolar) e o ACT (American College Testing ― Teste de Faculdade Americana). As instituições usam um ou outro para selecionar os candidatos, mas não só isso. Tem também outras etapas, que incluem histórico escolar, participação em competições escolares, atuação em atividades comunitárias, cartas de recomendação de professores (isso mesmo, o QI, “quem indica”, conta muito), uma carta de apresentação do próprio candidato, entrevistas presenciais, etc. Cada universidade ou faculdade define os critérios que mais vai levar em conta. Ser de minorias étnicas ou estrangeiro muitas vezes soma pontos a favor.

Lá não existe faculdade gratuita. Todas, mesmo as públicas, são pagas, não por mensalidades, como aqui, mas por anuidade (chamada tuition, que significa “taxa escolar”). Mas descontos substanciais e até bolsas integrais são oferecidos a estudantes de baixa renda, e especialmente àqueles (de qualquer nível de renda) que são reconhecidos como “bastante promissores” ― CDFs, em geral, lá tradicionalmente chamados de nerds. (Termo inicialmente pejorativo usado para identificar estudantes muito inteligentes, mas emocionalmente imaturos e socialmente desajustados. Um estereótico, claro, já que nem todos são assim. Na cultura pop, acabou ganhando outras conotações, englonando fãs de fição científica e fantástica, e de super-heróis.)

Uma coisa interessante que existe lá é o programa Advanced Placement (AP), algo como “Colocação Avançada”, que permite a estudantes ainda na High School (etapa equivalente ao nosso Ensino Médio) estudarem disciplinas introdutórias de graduação (undergraduate) que depois não precisarão ser estudadas de novo na faculdade. Quer dizer, o estudante faz, antecipadamente, matérias do futuro curso que pretende fazer, mesmo sem saber exatamente onde vai estudar. (Muitas instituições participam do programa, e as ementas das disciplinas mais básicas são praticamente idênticas em todas elas.)

Cabe aqui também uma explicação sobre peculiaridades nomenclaturais que às vezes causam confusão pra quem não é de lá. Aqui no Brasil, nós chamamos o Ensino Superior de Graduação, e o que vêm depois disso de Pós‐Graduação (especialização, mestrado e doutorado, sobretudo). No EUA, graduation refere‐se ao que aqui se chama “colação de gau”, ou a conclusão e certificação do Ensino Superior. Assim, o estudo que precede a graduation é chamado undergraduate (literalmente, “abaixo da graduação”), e o que a sucede é… Não, não é overgraduate, como talvez fosse de se esperar, mas simplesmente graduate. Então, um curso que aqui no Brasil é chamado de “graduação” lá e um undergraduate, e um curso que lá e chamado de graduate aqui é dito de “pós‐graduação”.

Outra coisa que é meio estranha é que o que nós chamamos de “curso” não é o mesmo que eles chamam de course. Para eles, courses são o que as nossas faculdades chamam de “disciplinas”. Quer dizer, enquanto aqui temos uma disciplina de Cálculo, lá eles tem um Calculus course. Isso se reflete nas traduções de livros‐textos americanos, que com frequência são chamados de “Curso de… [nome da disciplina] ” Já o que chamamos aqui de “curso universitário” lá não tem um nome específico; eles se referem diretamente ao tipo de curso, o mais comum (tanto lá como aqui) sendo o bachelor’s degree (“grau de bacharel”) ou baccalaureate, aqui chamado “bacharelado”. Quer dizer, o baccalaureate estadunidense consiste em vários undergraduate courses, cada qual correspondendo a uma “disciplina de graduação” de um bacharelado brasileiro.

Para o graduate level, equivalente à nossa pós-graduação, também tem diferenças. Aqui, geralmente você tem dois cursos principais: o mestrado, de dois anos, pra quem tem uma graduação, e o doutorado, de quatro anos, pra quem já tem um mestrado. É necessário um histório acadêmico bastante “notável” e um projeto de pesquisa muito bom pra pessoa partir logo do bacharelado pra um doutorado, saltando um mestrado. Mas lá nos EUA, o doctorate, ou doctor’s degree (“grau de doutor”) segue logo após a graduation. Cursos de master’s degree (“grau de mestre”) até existem, mas não são pré‐requisitos para o doctorate. [Curiosamente, não eles não tem uma palavra específica que possa ser traduzida por “mestrado”, um masterate, por exemplo.] Um tipo de “mestrado” muito valorizado no setor corporativo são os Master of Business Administration (MBA), ou “Mestrado em Administração de Negócios”, que podem ser mais caros até que um doctorate!

Ah, e os doutores formados lá são chamados de PhD, que significa Philosophy Doctor (“Doutor de Filosofia”), distinto do MD o Medicine Doctor (“Doutor de Medicina”), entre outros tipos de doctor. Assim, um PhD in Physics é, literalmente, um “Doutor de Filosofia em Física”. Isso tem a ver com o processo histórico de surgimento ds ciências modernas, todas elas surgidas originalmente como ramificações da Filosofia. (O que chamamos de “Ciências Naturais” hoje era, nos primórdios, chamado de “Filosofia Natural”.)

Quanto aos cursos que as instituições de ensino superior oferecem, tanto lá quanto aqui elas se dividem em dois tipos básicos, as universities (universidades) e os colleges (faculdades). As primeiras oferecem cursos tanto undergraduate/baccalaureate (graduação/bacharelado) quanto graduate/doctorate (pós‐graduação/doutorado). Já os colleges (as faculdades) oferecem apenas undergraduate/bachelor degree (grau de bacharelado). Também se costuma chamar de colleges as subdivisões internas por área de conhecimento de uma university. Aqui também uma universidade pode ser constituída de um punhado de “faculdades”, embora o termo mais comum para estas subdivisões por aqui seja “instituto”.

Já nos EUA, um institute pode ser tanto parte de uma university quanto uma instituição separada. Neste caso, um institute pode equivaler tanto a um college (se só oferecer bachelor degree) quanto a uma university propriamente (se oferecer doctor degree). Institutes são, geralmente, voltaados para áreas tecnológicas, como os famosos MIT (Massachusetts Institute of Technology ― Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e o Caltech (California Institute of Technology ― Instituto de Tecnologia da California). [Por que não chamaram o Caltech de CIT ou o MIT de Masstech? Cada instituição escolhe a sigla que quiser para si, ora!]

E aqui vai mais um nozinho pra sua cabeça: o que lá eles chamam de faculty é apenas o corpo docente de um college, institute ou university. Nada a ver com o que chamamos de “faculdade”, portanto. (Faça você uma tabelinha correspondendo os termos em inglês com os em português, pra você fixar na memória as semelhanças e diferenças.)

Outra coisa curiosa são os nomes que eles dão pros estudantes undergraduate, conforme a etapa em que estejam, na sua trajetória acadêmica. Aqui no Brasil, temos só três: os calouros, que acabaram de entrar, do primeiro período; os veteranos, dos períodos seguintes; e os formandos, do último período, que estão para concluir o curso. (Sendo que cada período é considerado como sendo um “semestre” letivo, que na verdade é um quadrimestre.) Nos EUA, são quatro, conforme o ano em que estejam (não o período): os freshmen e as freshwomen (do primeiro ano), os sophomore (do segundo ano), os juniors (do terceiro ano) e os seniors (do quarto ano). Se quisermos fazer uma correspondência, podemos dizer que os nossos calouros e calouras seriam freshmen/freshwomen, embora parte dos freshmen[women] fossem veteranos; que formandos seriam seniors, embora nem todos os seniors fossem formandos; e que todos os sophomores e juniors seriam veteranos, embora alguns veteranos também fossem fresh(wo)men e seniors.

Muito bem, mas como o OpenStax se situa em relação a tudo isso?

Entre os college americanos existe uma subcategoria, os comunity colleges, ou “faculdades comunitárias”, que oferecem undergraduate courses somente dos dois primeiros anos de um bachelor’s degree ― ou seja, apenas para estudantes freshmen e sophomores. Depois disso, os alunos se transferem para outros colleges, institutes e universities onde concluirão seus baccalaureates e poderão pleitear seus doctorates. Mas qual o sentido desse caminho mais “tortuoso” para uma graduation?

É por causa do processo seletivo das universidades, que busca selecionar os mais preparados e os mais ricos candidatos para as melhores e mais caras instituições, mas deixam muitos estudantes de fora: aqueles que tiveram desempenhos medíocres na high school ou nos testes SAT e ACT; ou não tiveram “boas referências” nas cartas de recomendação; ou que até tiveram bons desempenhos e boas referências para serem aceitos em boas universidades, mas não o suficiente para receberem descontos ou bolsas de auxílio, e não tinham como pagar as tuitions ou arcar com outros custos da vida acadêmica, tendo com frequência que trabalhar para se sustentar ou ajudarem suas famílias. (Sim, nos Estados Unidos também existem pobres! Mesmo que os pobres de lá vivam melhor que os pobres daqui…)

Os community colleges servem então como porta de entrada no Ensino Superior para todos os excluídos dos rigorosos processos seletivos das grandes instituições. Eles csão muito mais baratos que elas. Nos community colleges, os estudantes que tiveram desempenhos pífios em sua vida escolar anterior podem “meter a cara” e mostrar que são capazes de ter bom desempenho acadêmico; os que não tinham “boas referências” podem ganhar cartas de recomendação de professores respeitados na comunidade acadêmica; estudantes de famílias pobres podem economizar e juntar dinheiro para futuramente apenas ancar dois anos, ao invés de quatro, de uma grande universidade, ou se mostrarem merecedores, pelo seu desempenho, de descontos e bolsas. Todos poderão, enfim, sonhar com uma segunda chance de ingressar numa boa (e cara) universidade.

O próprio ex‐presidente Barack Obama seguiu uma trajetória acadêmica assim! Ele estudou no Occidental College e no Columbia College antes de ir pra Columbia University, onde se graduou. Mas não deve ser difícil pra você imaginar que, dado o perfil de estudantes, os community colleges são vistos como “faculdades de segunda”, e seus estudantes são muito discriminados, como gente “sem inteligência”, “sem berço” e “sem dinheiro” ― o que os americanos costumam resumir numa só palavra, loser, ou “perdedor”. O próprio Obama era por vezes chamado por quem não tinha simpatia por ele de “community college president”, no intuito de pôr em dúvida sua capacidade intelectual. (E depois acabaram elegendo um intelectual do calibre de Donald Trump…)

Preconceitos à parte, é fato que boa parte dos estudantes dos community colleges trazem deficiências de aprendizado de suas high schools, não necessariamente por que sejam menos inteligentes (embora alguns de fato sejam), mas porque são mais pobres, vivem em bairros violentos, tiveram professores menos qualificados, não tiveram oportunidade de estudar em boas escolas. O enredo lhe parece familiar? Pois não é esta a realidade de muitos, senão da maioria dos estudantes brasileiros do Ensino Médio?

Muitos estudantes de community colleges também não têm condições de adquirir os livros-texto indicados pelos professores nos cursos, o que prejudica seu desempenho acadêmico e afasta deles a “segunda chance” de obter um bachelor’s degree. Houve um aumento progressivo e generalizado dos preços dos livros-texto adotados nos colleges, institutes e universities americanos, nos últimos 20 anos, e sem nenhum indício de reversão de tendência. Muitos estudantes se viram com cópias piratas de livros, mas esta, como você já deve saber, não é a melhor solução, nem para eles, nem para os autores, as editoras, ou as próprias universidades.

É nesse contexto adverso que surgiu a iniciativa OpenStax da Rice University, para fornecer a estudantes dos community colleges livros-texto com os mesmos conteúdos dos adotados nas grandes universidades, só que mais baratos (gratuitos ou a preço de custo). Esses livros também não ignoram as deficiências que os estudantes trazem, e buscam cobrir as lacunas de aprendizado antes de avançar para tópicos mais avançados. São livros que servem de “ponte” entre as disciplinas da high school e os undergraduate courses, sobre o abismo da desigualdade de oportunidades.

Agora, depois de tanta contextualização, você deve ser capaz de entender como os livros da OpenStax podem servir pra CDFs como você. São livros mais avançados que os nossos de Ensino Médio, mas feitos para serem entendidos mesmo por quem tem deficiências no Ensino Médio ― ou mesmo no Fundamental. Quando têm que tratar desses conteúdos defasados, usam uma linguagem madura (afinal, são livros escritos para adultos, não pra adolescentes) e não ficam somente nos exemplos mais básicos (afinal, são livros de graduação, têm que manter um bom nível).

Nem todas as disciplinas que serviriam para estudantes brasileiros do Ensino Médio são cobertas por esses livros. Como eu disse lá no início, História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Literatura, Português e Inglês ficam de fora. (Livros de História e Sociologia até tem, mas é só sobre os EUA.) Mas Matemática, Física, Química e Biologia estão dentro ― até Astronomia, pra quem participa das Olimpíadas do conhecimento nessa área. Alguns livros destas disciplinas são próprios pra high school; outros são para AP courses (reveja lá em cima o que é isso, se já esqueceu), outros são de undergraduate level propriamente. Especialmente em Matemática, você pode ir da aritmética básica ao cálculo avançado só com os livros da OpenStax!

O maior problema pro estudante brasileiro é que os livros são todos em Inglês, claro. Mas você pode abri‐los na web, ao invés de baixar em PDF, usando os navegadores Google Chrome e Microsoft Edge, que traduzem as páginas automaticamente pro Português. Não é uma tradução perfeita, mas fica muito boa, o suficiente pra entender as explicações e os exercícios. Mesmo que você prefira se arriscar no Inglês (afinal, é uma disciplina que você tem que aprender, de qualquer jeito), o estilo é bastante claro e objetivo, direto ao ponto, sem enrolação.

Bem, acabou que esta postagem ficou grande demais pra eu falar dos livros propriamente. Na próxima, então, vou apresentar um programa de estudos só com livros da OpenStax, e dizer como eles podes ser usados em complemento ou substituição a livros nacionais.

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