Livros de Literatura na Estante do CDF

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História da Literatura em Língua Portuguesa é a disciplina chamada nas escolas simplesmente de “Literatura”. É uma das mais problemáticas na grade curricular do Ensino Médio.

Pra começar, há uma crença infundada de que é importante conhecer as grandes obras literárias para ter um bom domínio sobre “a língua”, o que na maioria dos casos quer dizer, sobre a “norma culta” ou a “norma padrão”, o que é falso. As gramáticas normativas costumam usar exemplos tirados de obras literárias para “abonar” suas regras artificiais, o que é um mal uso, e mesmo um abuso, da literatura. Perde−se de vista que os escritores são artistas, que usam as palavras como os pintores usam as tintas, que escrevem versos e prosas como escultores cinzelam a pedra e martelam o metal. Eles não tem compromisso com “regras” ou “normas”; criam-nas, seguem elas ou as violam (como acabei de fazer na colocação desses pronomes oblíquos) conforme melhor servir aos seus propósitos criativos e às suas sensibilidades estéticas.

Não, você não precisa conhecer as vidas e as obras de dezenas de autores, ou mesmo de somente meia dezena de “grandes” autores, pra escrever bem no seu dia-a-dia, nas provas de redação do Enem, dos vestibulares ou dos concursos públicos, nos trabalhos acadêmicos ou profissionais. Não é pra isso que a Literatura “serve”.

Você deve conhecer literatura pelos mesmos motivos que deve conhecer a música, o cinema, os quadrinhos, as artes em geral. São todas manifestações culturais da sociedade que você integra, por meio das quais são apresentados e questionados os costumes, as tradições, os valores comuns; que refletem sobre “a vida”, quer dizer os dramas inerentes à condição humana, as alegrias e tristezas, triunfos e tragédias, individuais e coletivos. É em parte por meio destas manifestações culturais que nós nos reconhecemos como integrantes de um mesmo “povo”, quer dizer, uma coletividade com uma identidade comum.

Além do que, é claro, todas essas manifestações constituem também formas de diversão escapista, por meio das quais esquecemos, por algumas horas, as durezas do dia-a-dia, e “viajamos” na imaginação de pessoas que são mais criativas que nós. Temos necessidade psicológica mesmo desse tipo de coisa, pra não surtarmos.

Se é assim, por que estudar a história da literatura e não a história da música ou do cinema? Por causa de uma tradição acadêmica que sobrevaloriza a literatura em relação a outras manifestações culturais igualmente voltadas para a reflexão e a diversão. Mas é uma tradição que tem lá sua razão de ser; afinal, a literatura é uma das mais antigas dessas manifestações culturais. Muitas delas, inclusive, usam a literatura como fonte de inspiração.

Acontece, porém, que, ao passo em que é possível apreciar uma pintura, uma escultura ou uma música em poucos minutos de contemplação, obras literárias mais extensas (livros de poemas, de contos, novelas, romances) requerem várias horas de dedicação. Um passeio de uma hora num museu permite conhecer as principais obras de vários artistas. Num show de duas horas, você vibra com os maiores clássicos de uma banda de rock com 30 anos de estrada. Mas conhecer as principais obras de um escritor consagrado demanda muitas horas de leitura no decorrer de muitos dias! Um filme longo de três horas de duração pode narrar uma história que, se fosse lida, demandaria dez vezes mais tempo.

Quer dizer, conhecer e apreciar literatura requer muito tempo, comparado a outras manifestações culturais. Isso leva a que, quando se vai estudar a Literatura na escola, ou se dedica um tempo longo demais, que é tirado das outras disciplinas (nem tanto em sala de aula, mas nos trabalhos extraclasse, com leituras de vários livros), ou o estudo fica muito esquemático, resumindo‐se a listas de autores e obras, com uma ou duas páginas para cada autor, e poucos trechos reproduzidos de algumas obras, só pra dar um “gostinho”.

Já imaginou como seria chato estudar História do Cinema ou da Música Popular assim? “Vida e obra” de dezenas de diretores e atores, listas de centenas de filmes, mas só algumas cenas de uns poucos filmes selecionados. Ou então, vários gêneros musicais, dezenas de instrumentistas, cantores, compositores, bandas, centenas de álbuns com milhares de músicas, mas apenas os maiores sucessos de fato reproduzidos.

Outra questão diz respeito a uma espécie de nacionalismo chauvinista (pergunte ao google o que significa) embutido na disciplina. Aqui no Brasil se estuda exclusivamente a Literatura em Língua Portuguesa, quando não somente a Literatura Brasileira. Mas esse mesmo estudo mostra que todos os gêneros literários não surgiram no Brasil ou em Portugal (salvo, talvez, o Trovadorismo medieval), mas em outros países (Itália, França, Inglaterra, Alemanha), sendo depois “importados” por escritores portugueses, que então os “re-exportavam” para os escritores brasileiros (exceto o Modernismo, que foi importado direto dos países de origem para São Paulo, sem intermediação de Portugal).

Quer dizer, a verdade é que a produção literária lusófona em geral, e brasileira em especial, é periférica na corrente de inovação da Literatura Ocidental (quer dizer, da Europa e de suas ex‐colônias). Não quer dizer que não tenhamos tido autores geniais e criativos, que escreveram obras originais e influentes, reconhecidos mundialmente. Mas se ignora, no estudo feito nas escolas brasileiras, grandes autores de outras nacionalidades (Cervantes, Shakespeare, Balzac, Tolstoi) e grandes clássicos literários escritos em outras línguas. E se desperdiça o tempo dos estudantes com dezenas de autores medíocres e suas obras desimportantes, apenas porque eram brasileiros ou escreveram em Português.

No meu entender, devia se fazer assim: para cada gênero literário, pelo menos um autor e uma sua obra de cada uma das línguas mais faladas da Europa, e dois ou três autores e respectivas obras lusitanos ou brasileiros (ou de países lusófonos africanos). Só mesmo os mais representativos, que são reconhecidos em outros países que não os seus próprios como os maiores autores em seus respectivos idiomas.

Se você quiser conhecer grandes autores e obras de outros países (não para o Enem, mas para enriquecer sua vida de leitor), uma ótima coleção, e razoavelmente acessível (encontrada em livrarias de usados e no Mercado Livre) são os oito volumes da revista Cadernos EntreLivros, trazendo Panoramas das Literaturas Inglesa, Russa, Americana, Francesa, Portuguesa, Italiana, Latino‐Americana e Alemã. São cerca de 100 páginas cada uma. (Infelizmente, não encontrei PDFs de nenhuma.)

Tá, mas enquanto os educadores nacionais não atinam para essas verdades que expus, você vai ter que perder gastar tempo com a Literatura como é ensinada nas escolas e cobrada no Enem e nos vestibulares. Então, aqui vão as sugestões pra você, pelo menos, alcançar seu objetivo principal (ingressar numa boa universidade), sem pegar aversão por obras literárias.

As duas coleções que indiquei pra Português, colocadas em livre acesso pelas próprias editoras, incluem conteúdos de Literatura Brasileira:

  • Português: Linguagens, de William Cereja e Thereza Magalhães, volumes 1, 2, 3, da Editora Saraiva;
  • Português – Contexto, Interlocução e Sentido, das irmãs Maria Luiza e Maria Bernadete Abaurre, juntamente com Marcela Pontara, também em três volumes, da Editora Moderna.

Os mesmos autor e autoras têm também obras que tratam a interpretação, a redação e a gramática em separado. Os conteúdos são em grande parte os mesmos dos volumes misturados, mas as explicações são mais detalhadas, tem textos complementares e outras frescuras propostas de atividades. Cereja e Magalhães escreveram Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa (fora de catálogo, só encontrado em livrarias de usados e no Mercado Livre).

Marcela Pontara e as Marias Abaurre têm Literatura – Tempos, Leitores e Leituras, do projeto Moderna Plus, que cobre tanto a produção portuguesa quanto a brasileira. Consegui pra você a edição de 2010, incluindo o livro do aluno, as respostas do livro do professor e mais o suplemento de revisão pro vestibular, tudo reunido por mim num só arquivo. Se você só puder estudar um único livro de literatura, que seja este.

Mas como não há livro de Literatura que dê o mesmo destaque aos mesmos temas, escritores e obras literárias, estudar por livros de autores diferentes ajuda a dominar melhor o tema. Esta é a estratégia que eu recomendo a quem pretende cursar uma graduação na área de Letras ou Linguística. Neste intuito, outros dois livros bastante completos são o Painel da Literatura em Língua Portuguesa, de José de Nicola, e Curso Básico de Literatura em Língua Portuguesa, de Ulisses Infante, ambos pela pela Editora Scipione. Os dois cobrem tanto a Literatura Brasileira quanto a Portuguesa.

Acho muito útil também complementar o estudo da Literatura com a História da Arte, já que todos gêneros literários históricos são manifestações na criação literária de movimentos artísticos mais amplos, que perpassam outras formas de expressão artística. Um ótimo livro de História da Arte para esse fim é o de Graça Proença, pela Editora Ática. Não vai ser difícil pra você, olhando os sumários deste livro e dos outros de Literatura, identificar os capítulos correspondentes que tratam dum mesmo movimento artístico‐literário. Recomendo ler o capítulo de um determinado gênero primeiro em História da Arte, pra ter uma visão ampla do movimento, e depois em Literatura, pra ver como as características próprias daquele gênero foram adaptadas pelos escritores.

Por fim, cabe lembrar que algumas universidades, como a USP e a Unicamp, listam anualmente uma penca de obras literárias cuja leitura é obrigatória para quem quer ter alguma chance de passar em seus vestibulares. Como as listas mudam pouco de ano para ano, e não dá pra ler tudo faltando poucos meses para as provas, convém ler, com antecedência, os livros cobrados no ano anterior. Assim, se um ou dois forem trocados, dá pra ler só esses quando sair o edital do vestibular.

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