Como Estudar Português ― Livros de Gramática, Interpretação e Redação

21 comentários

(Esta é mais uma postagem antiga, reescrita e atualizada, com novas indicações.)

O estudo de Língua Portuguesa é onde mais fica patente o fracasso da escola brasileira. Não vou aqui tratar das causas, que são múltiplas, mas apenas partir da triste constatação de um fato. Mesmo que você seja um CDF já cursando o Ensino Médio, é provável que você cometa erros grosseiros de Português que, no meu tempo de estudante, não seriam admissíveis além da quinta série (equivalente ao atual sexto ano do Fundamental). A tarefa de aprender a chamada norma culta do Português Brasileiro, que nunca foi fácil, é atualmente muito mais penosa do que era no passado.

A deterioração do ensino da Língua Portuguesa se reflete também na progressiva infantilização, pra não dizer imbecilização, dos livros didáticos. Muitos livros de Português voltados para o Ensino Médio parecem os que antes eram adotados no segundo ciclo do Ensino Fundamental (quinta à oitava séries, equivalentes aos atuais sexto ao nono anos). Eles vêm com mais ilustrações do que textos, com mais textos de leitura do que apresentação teórica da gramática, com poucos e fáceis exercícios. (Eu nem tenho coragem de abrir um livro de Português de Ensino Fundamental…)

Por outro lado, os livros de Português no atual século vêm se beneficiando pesquisas acadêmicas na área de Linguística que denunciam a artificialidade da tal “norma culta”, que nem as pessoas mais “cultas” de fato usam, nem em suas conversas, nem em seus textos; que buscam valorizar a riqueza das variantes regionais do Português em contraposição ao “padrão médio” fluminense‐paulista-mineiro, prestigiado nos meios de comunicação de massa; que demonstram como muitos fenômenos linguísticos caracterizados como “erros de Português” na tradição gramatical fazem parte da mudança natural da língua, inclusive já tendo ocorrido em outras línguas românicas e germânicas, onde são bem aceitas pelos linguistas.

Quer dizer, a “norma culta” ou “norma-padrão” das antigas gramáticas (por essa razão chamadas de gramáticas normativas) é ensinada a contragosto, como uma imposição de setores retrógrados do meio acadêmico, apegados a uma tradição que deixou de fazer sentido para os falantes (e escreventes) da língua. Um “mal necessário”, também, por causa de certa inércia das bancas examinadoras de vestibulares e concursos públicos, e os codificadores dos “manuais de redação” das grandes empresas jornalísticas e de órgãos da administração pública.

As gramáticas de referência, em nivel de graduação, produzidas neste século, buscam descrever a “língua viva” (e por essa razão são chamadas de gramáticas descritivas): aquela que efetivamente é usada pelos mais variados setores da população e nas mais diversas regiões do País. E advogam que, se é pra adotar alguma variante linguística como “norma” a ser seguida em comunicações oficiais dos setores públicos e privados, que seja então baseada nos padrões de fala e escrita das pessoas com esclaridade superior.

Eu adoraria recomendar poder logo de cara essas gramáticas, mas infelizmente tenho que reconhecer que elas não são apropriadas para o precário domínio do idioma que muitos estudantes têm, e também não são fáceis de se estudar (quer dizer, não muito “didáticas”) pra quem está se preparando pro Enem, pra um vestibular ou um concurso, ou mesmo o processo seletivo de uma grande empresa. Porque elas trazem muitas discussões teóricas, por vezes enfadonhas, e nenhum exercício!

Se você quiser uma boa gramática normativa pra treinar a “norma culta padrão”, tem a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla. (Que nem é mais tão “novíssima” assim…) Bastante abrangente, detalhada e objetiva, e com muitos exercícios, é a mais indicada para quem quer se preparar para os mais difíceis vestibulares e concursos do Brasil.

Mas as maiores dificuldades dos estudantes, mesmo os que já dominaram o código alfabético (quer dizer, não cometem mais erros ortográficos ou de pontuação grosseiros), nem são tanto os tópicos gramaticais, mas a interpretação e a produção de textos. Daí que os livros didáticos de Português dão cada vez mais espaço a essas atividades; mas às vezes o fazem ao custo de um ensino mais superficial de tópicos gramaticais. É difícil para os autores encontrarem um bom equilíbrio entre esses dois aspectos do domínio da língua.

Duas coleções que, no meu entender, dosam bem o trabalho com textos e com a gramática, e tentam incorporar tanto quanto possivel as teorias lingúisticas mais atuais, estão agora disponíveis em livre acesso, como obras aprovadas no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) de 2018. São elas:

  • Português: Linguagens, de William Cereja e Thereza Magalhães, volumes 1, 2, 3, da Editora Saraiva;
  • Português – Contexto, Interlocução e Sentido, das irmãs Maria Luiza e Maria Bernadete Abaurre, juntamente com Marcela Pontara, também em três volumes, da Editora Moderna.

Se você é meio fraco em Português, recomendo estudar pelas duas coleções, ao mesmo tempo, alternando os capítulos de uma e de outra. Quanto mais variados os textos, as explicações, os exercícios e os temas de redação, melhor será pra você! Essas obras também se encontram disponíveis em “volumes únicos”, que eu não recomendo, por trazerem os conteúdos mais abreviados e menos exercícios.

(Estas coleções também incluem Literatura Brasileira, de que falarei em outra postagem.)

Os mesmos autores e autoras têm também obras só focadas em uma ou outra subdisciplina. São as que eu recomendo pra quem já vem do Ensino Fundamental com um razoável domínio da língua. (Ou pra quem era fraco e já ficou forte depois de estudar as coleções misturadas.) Os conteúdos são em grande parte os mesmos dos volumes, mas as explicações são mais detalhadas, tem mais exemplos, exercícios, ilustrações, tetos complementares e propostas de atividades.

Cereja e Magalhães escreveram Gramática Reflexiva, Interpretação de Textos e Texto e Interação. Marcela Pontara e as Marias Abaurre têm Gramática: Texto, Análise e Construção de Sentido e Produção de Textos: Interlocução e Gêneros. (Não consegui encontrar nenhum dos dois pra colocar aqui.) No caso desses livros separados, você pode alterar os capítulos na sua programação de estudos ― um capítulo de interpretação, outro de gramática e outro de redação.

Os livros de “produção de textos” são bem interessantes quanto à variedade de gêneros que abordam (Tem até roteiro de cinema!), bem mais que na minha época de estudante. Porém, têm um grave defeito: não abordam em profundidade o gênero que será pedido de você na redação do Enem e dos vestibulares, a dissertação argumentativa. (Ninguém vai pedir pra você escrever um roteiro de filme no Enem…)

Antigamente, os livros de redação (e não “produção de textos” em geral) tratavam quase que exclusivamente do gênero dissertativo, e iam a fundo em técnicas de construção textual e recursos argumentativos. Uma referência entre essas obras antigas é Para Entender o Texto: Leitura e Redação, de José Luiz Fiorin e Francisco Platão Savioli. (O arquivo é meio ruinzinho, mas o conteúdo é o que importa, certo?)

21 comentários em “Como Estudar Português ― Livros de Gramática, Interpretação e Redação”

  1. Serjão, esse do “Português: Linguagens” do Cereja é adequado pra quem vai tocar no primeiro livro de Português na vida?

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  2. Olá, serjão! Parabéns pelo excelente trabalho! Já estudei pelo Novíssima Gramática, muito bom. Mas gostaria de aprofundar-me mais no estudo apenas pela vontade de aprender mais. Mencionaste que ela não seria tão “novíssima” assim, então qual seria um livro mais atual para quem quer deseja estar mais atualizado?

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    1. Olá, Secufpa! (Cada codinome que vocês inventam…)

      As gramáticas mais modernas que eu posso recomendar são, em ordem crescente de ruptura com a tradição normativa:

      Gramática Houaiss da Língua Portuguesa, de José Carlos de Azeredo. (A mais prática.)

      Nova Gramática do Português Brasileiro, de Ataliba de Castilho. (A mais teórica.)

      Gramática Descritiva do Português Brasileiro, de Mário Perini. (A mais inovadora.)

      Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, de Marcos Bagno. (A mais “subversiva”.)

      São todas trabalhos voltados para estudantes de graduação e pós, e também para professores. Trazem muita teoria e nenhum exercício.

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    1. Outros livros dos mesmos autores também estão neste blog que você indicou, e parecem estar em arquivos de melhor qualidade, e com mais alguns extras. Vou baixá-los também e, conforme for, substituir os links aqui no Guia do CDF. Mais uma vez, obrigado pela colaboração!

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  3. Olá! O que você acha do livro do Pasquale e Ulisses? O gramática da língua portuguesa? Eu achei um exemplar bem barato e comprei. Acha que fiz uma boa escolha? Eu dei uma pesquisada antes, falam muito bem do livro. Pretendo complementar com um PDF do Gramática Metódica do Napoleão Almeida (já ouvi falar dele?)

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    1. Olá, Curioso! As gramáticas atuais voltadas para o Ensino Médio são muito parecidas. O livro de Pasquale e Ulisses é tão bom quanto os outros que citei na postagem.

      Já a Gramática Metódica é bastante tradicional. Alguns diriam mesmo “antiquada”. É anterior à reanálise dos fenômenos gramaticais à luz da linguística moderna. Os gramáticos atuais defendem uma “norma culta” mais próxima da maneira como as pessoas de escolaridade superior de fato falam e escrevem, respeitando ainda as diferenças regionais. Em alguns pontos, como no emprego de pronomes pessoais, os gramáticos atuais divergem muito de Napoleão Almeida.

      A tendência do Enem e dos vestibulares desde a virada do século tem sido se aproximar cada vez mais do conhecimento gramatical moderno. Por isso, não recomendo a Metódica, salvo para concursos públicos na área do Direito.

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      1. Muito obrigado pela resposta! O livro do Pasquale eu quero estudar para o embasamento/introdução mesmo. O livro do Napoleão achei bem interessante por ser bem antigo e ter bons comentários dele em alguns vídeos que assisti sobre livros de gramática, mas valeu pelas ressalvas! Eu achei um livro do Cereja & Magalhães aqui em casa: um volume para o 1° ano do EM de 2012. Vou dar uma olhada nele também.

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  4. Bom dia, Serjão. Se eu adquirir apenas os do Cereja + cegalla já basta para Fuvest e Unicamp? penso em adquirir pela estante virtual, entretanto os livros baratos são bem antigos há algum problema?

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    1. Bom dia, Mário! Difícil saber o que é “suficiente” pra passar num determinado vestibular. Depende de tantos fatores! (Seu conhecimento da matéria, a dificuldade da prova, o rigor da banca, a relação candidato/vaga pro curso pretendido…)

      Só existe uma estratégia eficaz: estude o máximo que puder! Terminou um livro da minha lista? Pegue outro! Sempre em níveis crescentes de aprofundamento.

      Pra Português, livros muito antigos têm a desvantagem de não seguir o último Acordo Ortográfico em vigor entre Brasil e Portugal. Mas os livros publicados nos últimos 10 anos já seguem o Acordo; aí, não tem problema.

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  5. Recomende livros para leitura nos horários de lazer. Tenho o hábito de leitura mas muitas das vezes leio livros rasos. Obrigado pelo conteúdo do site.

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    1. E quem disse que estudante CDF pode se dar ao luxo de ter lazer?

      Brincadeira… Leia os clássicos da Literatura em Língua Portuguesa, especialmente da Literatura Brasileira.

      Eu recomendaria de outras línguas também, mas o estudante que vai prestar vestibular ou fazer o Enem precisa unir o agradável ao útil. Deixe os clássicos da Literatura Ocidental, ou mesmo Oriental para outro momento.

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      1. Existe um livro chamado “Curso pratico de gramática” do Ernani Terra, ele é excelente.

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  6. Não tenho certeza mas acho que em outro post referente a português você passou um livro sobre redações, se for possível falar um pouco sobre redações também seria ótimo.

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    1. Olá, Matheus. O livro “Texto e Interação”, de Magalhães e Cereja, indicado no post, trata de redação. Mas você tem razão, dou pouca ênfase a redações neste post. Eu só estou indicando um livro de redação, enquanto que de gramática e literatura eu indico vários. Vou reforçar esta parte no texto. Volte daqui a uns três dias, e confira minhas dicas.

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  7. Caro D. d. Adquira pelo menos os de Magalhães e Cereja, que cobrem todo o programa do Ensino Médio. Os outros são para reforçar ou revisar. São importantes, mas não essenciais.

    Você também não precisa comprar todos novos. Tem sebos virtuais, como http://www.estantevirtual.com.br , que vendem livros usados, bem conservados, e mais baratos que os novos.

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  8. Não estou achando nenhum desses livros em pdf.. Aí fica difícil porque comprar tudo isso apenas para Linguagens é inviável pra qualquer um..

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