Como Estudar Ciências Humanas ― Livros Didáticos de Livre Acesso

22 comentários

(Este é um post antigo, que modifiquei bastante, e resolvi repostá‐lo.)

Há uma certa confusão entre nós, brasileiros, acerca do que chamamos de “Ciências Humanas”. São disciplinas que, na tradição acadêmica inglesa, cabem em dois grupos distintos, embora relacionados: as Humanities, ou Humanidades, e as Social Sciences, ou Ciências Sociais. Estas últimas são mais fáceis de definir, como disciplinas que adaptaram o método científico (hipotético‐dedutivo e empírico‐indutivo) a questões referentes ao comportamento dos seres humanos como seres sociais. Elas estudam tanto os indivíduos inseridos em sociedades quanto as sociedades como um todo. Incluem a Psicologia, a Linguística, a Antropologia, a Arqueologia, a Sociologia, a Economia, a Ciência Política, pra ficar nas principais. (Você pode pesquisar na Wikipedia sobre o que cada uma delas trata.)

A disciplina que chamamos de Geografia tem a peculiaridade de ter partes tanto de Ciências Exatas (a Cartografia) Ciências Naturais (a Geografia “Física”) e Ciências Sociais (as Geografias “Humana” e Econômica, e a Geopolítica). A Geografia Física, porém, é apenas a parte mais descritiva de um conjunto de Ciências Naturais coletivamente chamadas de Geociências, ou “Ciências da Terra”: Geologia, Geomorfologia, Pedologia, Hidrologia, Oceanografia, Glaciologia, Climatologia, Biogeografia. (Novamente, a Wikipedia tem bons artigos sobre cada uma delas.) E as Geografias Humana e Econômica e a Geopolítica constituem as partes descritivas da Sociologia, da Economia e da Ciência Política, respectivamente. A Geografia descreve como os fenômenos tratados por essas várias outras ciências se distribuem pela superfície do planeta.

As Humanidades, por outro lado, reúnem um conjunto de disciplinas que tratam de aspectos analíticos e descritivos das diversas manifestações culturais humanas. Incluem os campos da História, da Filosofia, do Direito, da Literatura e das Artes em geral. Essas disciplinas não têm, propriamente, um método científico guiando suas análises. Suas teorias não surgem a partir de procedimentos lógicos dedutivos e indutivos aplicados a hipóteses postas à prova por observações e experimentos criteriosos. São visões apriorísticas de mundo, muito particulares dos pensadores que as formulam, e que se mostram úteis para interpretar e criticar as diversas manifestações culturais, atribuir sentidos e valores a essas manifestações e construir narrativas coerentes a partir delas. As Humanidades até podem se valer de técnicas, raciocínios e métodos “emprestados” das Ciências Sociais, mas não são, em si mesmas, ciências, num sentido rigoroso do termo.

Quer dizer, as “teorias” das Humanidades são melhor chamadas de doutrinas ou ideologias. E, dada a grande proximidade conceitual entre as Humanidades e as Ciências Sociais, estas últimas acabam sendo muito influenciadas pelas ideologias, por vezes até mesmo prejudicando a aplicação dos métodos científicos que as Ciências Sociais tentam seguir. É o que se quer dizer quando se acusa uma determinada teoria das Ciências Sociais de ser muito ideologizada.

Uma ideologia que é bastante influente nas Humanidades e nas Ciências Sociais na América Latina, e sobretudo no Brasil, é o marxismo, que leva o nome de seu principal formulador, o filósofo (e sociólogo, e economista, e cientista político, e historiador) Karl Marx, que viveu no século 19. Sem dúvida que esta visão de mundo trouxe contribuições importantes ao entendimento e à organização das sociedades humanas. Mas também trouxe muitos problemas, e inspirou mesmo hediondos crimes contra a humanidade! (Aliás, é muito comum isso: que ideologias formuladas com as melhores intenções acabem servindo a objetivos pouco nobres quando postas em prática.)

Acontece que, enquanto nos países desenvolvidos, o marxismo é apenas uma dentre muitas ideologias que os acadêmicos se servem para entender e criticar suas sociedades, e desse modo fazê‐las evoluir, aqui no Brasil o marxismo se tornou hegemônico, em muitos departamentos de Humanidades e de Ciências Sociais das universidades. E como os professores que trabalham nas escolas, em especial os que escrevem livros didáticos adotados pelas escolas, são formados nesses departamentos universitários, eles acabam também repassando esta visão de mundo muito “marxista” aos seus alunos ― e somente esta visão, deixando de lado outras abordagens, que eles simplesmente desconhecem.

São pelo menos 40 anos em que a maioria dos estudantes dos cursos brasileiros de bacharelado e licenciatura em História, Geografia, Filosofia, Sociologia, Antropologia, etc., são ensinados e formados segundo uma linha doutrinária majoritariamente marxista. (Mais forte em algumas disciplinas, como História e Sociologia, menos em outras, como Economia e Direito.) Não é de se espantar, pois, que a quase totalidade dos livros didáticos escritos neste período, bem como de apostilas de cursinhos, provas de vestibulares e do próprio Enem, apresentem uma leitura marxista do mundo como a única válida ou “correta”.

Um outro problema, que é independente deste, mas acaba por agravar o quadro, é o seguinte. Conforme eu falei, há muitas disciplinas de Humanidades e de Ciências Sociais. Então, por que só quatro, ou exatamente essas quatro ― História, Geografia, Filosofia e Sociologia ― são estudadas no Ensino Médio? Outros países têm Economia e Psicologia no lugar de Filosofia e Sociologia nessa fase escolar, por exemplo. E por que não aprender um pouco de Direito no Ensino Médio, pro estudante ingressar na vida adulta conhecendo as leis mais importantes que ele terá que obedecer, sabendo quais são seus direitos e obrigações, e como fazê‐los valer nos tribunais?

No meu entender, somente História, Geografia e Direito deveriam ser disciplinas obrigatórias na grade do Ensino Médio. Outras, como Filosofia, Sociologia, Economia, Antropologia, Psicologia, Literatura, História da Arte, deveriam ser oferecidas como eletivas, isto é, opcionais. Os estudantes escolheriam quais delas teriam interesse de estudar, podendo, inclusive, escolher nenhuma.

Mais um problema que afetou as Humanidades e Ciências Sociais (e também as Ciências Exatas e Naturais, em menor grau), foi que, com tantas disciplinas obrigatórias, simplesmente não dá tempo dos professores ensinarem e dos estudantes aprenderem muita coisa. Quando Sociologia e Filosofia não eram obrigatórias, havia mais tempo de aula de História e Geografia nas grades horárias dos colégios. Havia coleções de três livros de História (“Antiga e Medieval”, “Moderna e Contemporânea”, e “do Brasil”) e dois livros de Geografia (“Geral” e “do Brasil”), cada um com tanto conteúdo quanto um atual “volume único” dessas disciplinas. Ambas tiveram, porém, que ter suas cargas horárias reduzidas e seus conteúdos programáticos diminuídos, pra poder acomodar Filosofia e Sociologia na grade curricular ― e, em alguns casos, também História da Arte.

Se você reparar no tamanho dos livros de Ensino Médio, vai ver que as melhores coleções de matemática, física, química e biologia são mais extensas, em total de páginas, que as coleções de história, a disciplina que tem o conteúdo mais extenso da área de Humanas. Inclusive, volumes únicos são mais comuns nas disciplinas de Humanas que nas de Ciências Naturais e Exatas. E, paradoxalmente, as disciplinas de Humanas são todas expostas em texto corrido, sem fórmulas e com poucos gráficos. Era, pois, de se esperar que as coleções de Humanas fossem mais extensas que as de Exatas e Naturais! Mas nunca houve, para o Ensino Médio, nem para o antigo Segundo Grau dos seus pais, nenhuma coleção de História equivalente ao que os FME, de onze volumes, são para Matemática, ou que a coleção de oito volumes do Robortella era para a Física.

A conclusão que se pode tirar disso é que as disciplinas de Humanas, no Ensino Médio, veiculam muito menos informação que as disciplinas de Exatas e Naturais. São menos conhecimentos que precisam ser assimilados pelos estudantes. O pessoal de Humanas meio que se ofende quando se diz, mas é fato que, pelo menos em nível pré-universitário, essas disciplinas são mais “fáceis” que as Exatas e Naturais, no sentido de que exigem menos esforço e tempo de estudo dos estudantes para absorver seu conteúdo programático.

É por isso tudo que, não é exagero nenhum dizer, você não aprenderá História, Geografia, Filosofia, nem Sociologia, de verdade, com seus professores, ou nos livros didáticos que eles indicarem pra você. E nem nas apostilas dos melhores cursos pré-vestibulares. Você só vai ver uma grosseira simplificação, quando não uma deturpação, do que essas disciplinas realmente deviam ser. Mesmo assim, você vai precisar estudar essas disciplinas, porque, afinal, elas constam do Enem e dos Vestibulares. E vai ter que estudá‐las da maneira precária, limitada, ideologizada com que são ensinadas nas escolas, porque é dessa maneira que elas são cobradas nas provas de seleção para as universidades.

Sendo assim, que livros você devia usar para estudar Humanidades e Ciências Sociais? Quaisquer uns! Não importa muito. Livros, apostilas, tanto faz. Sendo bastante pragmático, e um tanto cínico, você só vai precisar engolir os conteúdos que esses livros trazem e vomitá‐los nas provas do Enem e de vestibular para a banca corretora te dar a nota que você precisa pra garantir sua vaga na faculdade. Estudar essas disciplinas pra valer mesmo, só depois, em livros de graduação, preferencialmente estrangeiros.

Recentemente, algumas das maiores editoras de livros didáticos do país puseram em livre acesso diversas coleções aprovadas no Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), incluindo várias de História, Geografia, Filosofia e Sociologia. A Moderna e a Saraiva são as que oferecem mais opções. Listo elas aqui, sem comentá‐las, pois não teria muito de bom a dizer sobre elas.

Para História:

Para Geografia:

Para Filosofia:

Para Sociologia:

Quais dessas obras você deve escolher? Faz assim: começa com uma coleção de cada disciplina, escolhidas ao acaso mesmo, e estudadas ao mesmo tempo. Quando terminar uma coleção, pega outra da mesma disciplina. Assim, você revisa o que já estudou, mas sob outra perspectiva, e pode mesmo aprender uma ou outra coisa nova.

22 comentários em “Como Estudar Ciências Humanas ― Livros Didáticos de Livre Acesso”

    1. Para Ensino Médio, qualquer livro serve. Todos são equivalentes em virtudes (poucas) e defeitos (muitos). Só precisa ser uma edição recente, de menos de cinco anos.

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  1. Sérgio, poderia postar o site de downloads dos seguintes livros:
    Glencoe World History + Modern History
    Ways of the World, A Brief Global History with Sources + Thinking Through Sources for Ways of the Worl;
    Obrigado.

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      1. Não é isso, eu quero os sites originais onde os livros foram baixados, para ver se acho mais temas interessantes.

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      2. Ah, tá… Esses livros eu baixei da “Library Genesis”. O endereço muda de tempos em tempos. Busque no Google.

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  2. Bom dia, Serjão. O que acha do livro textos básicos de sociologia de Celso Castro? Posso utilizá-lo para estudar pro enem?

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    1. Não conheço este livro. Chequei as resenhas da Amazon, majoritariamente positivas. Mas isso não quer dizer que seja um livro adequado pro Enem.

      Em geral, livros de coletâneas de textos são úteis para complementares a outros que tratam da história da disciplina. Porque os textos precisam ser contextualizados no desenvolvimento geral da disciplina.

      Por exemplo, da mesma editora, tem os livros de Filosofia do professor Danilo Marcondes. O principal é “Iniciação à História da Filosofia”; os outros dois, “Textos Básicos de Filosofia” e “Textos Básicos de Ética”, servem para aprofundar os assuntos tratados no primeiro.

      Para se preparar pro Enem, o melhor ainda é usar livros de Sociologia de Ensino Médio mesmo, por mais limitados que eles sejam.

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      1. Entendi. É que esse livro que o senhor indicou eu não consegui achar uma versão em pdf e no momento n estou em condições de comprar um.

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      2. Use o que você tiver à disposição, então. Mais tarde, você reforça o aprendizado com outro livro.

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  3. Olá Serjao! Sei que no texto voce diz para ler qualquer livro ou apostila para humanidades e ciencias sociais se o foco é o vestibular, mas voce poderia recomendar alguns titulos? Eu vivo fora do Brasil já a algum tempo e tenho interesse em prestar o vestibular aí, entao a verdade é que me facilitaria bastante ter um norte por onde comecar. Obrigada!

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      1. Obrigada pela resposta. Atualmente vivo no Chile, e quero cursar engenharia (mecanica ou civil), pretendo fazer o Enem e vestibular para faculdades públicas (como por exemplo a fuvest)

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      2. Nesse caso, você não vai precisar se aprofundar muito nas matérias de Humanas.

        As principais editoras nacionais de livros didáticos disponibilizaram as coleções aprovadas no PNLD (Programa Nacional de Livros Didáticos) na íntegra, em livre acesso. Você pode estudar por elas. Procure no google por PNLD 2018 moderna, PNLD 2018 saraiva, PNLD atica. Você vai encontrar vários livros de História, Geografia, Sociologia e Filosofia.

        Pegue também as provas dos últimos anos do Enem e da Fuvest, pra treinar os tipos de questões e as abordagens.

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  4. Olá, Serjão. Você recomenda estudar os dois livros de história mundial? E em filosofia e sociologia, aqueles bastam?

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    1. Olá, Mário. Desculpe a demora. Para o Enem, o Glencoe é mais do que suficiente. Ways of the World é mais pra quem já foi aprovado e quer se preparar melhor pro que vai estudar no primeiro ano de um curso de Humanas. É um livro pras férias depois do Enem e antes da sua estreia na universidade. Pra Filosofia e Sociologia, sim aqueles dois bastam.

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    1. Repostado, Kelvin. Obrigado pelo aviso! Apenas tenha um pouco de paciência na hora de baixar, porque o arquivo é grande, demora um pouco.

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