Os Fundamentos da Física na Estante do CDF

Os Fundamentos da Física de Ramalho, Nicolau e Toledo, com as resoluções dos exercícios. A mais importante coleção de Física já lançada no mercado nacional.

5 comentários

Toma seu lugar na Estante do CDF uma obra muito conhecida, um tanto controversa, mas, que, para o bem e para o mal, definiu o modelo seguido por todas as coleções de Física que se seguiram: os famosos Fundamentos da Física, de Ramalho, Nicolau e Toledo. Esta é, sem sombra de dúvida, a mais importante coleção de Física já lançada no mercado nacional. Tem até estudos acadêmicos avaliando o impacto que esta obra teve no ensino de Física no Brasil! Por exemplo, “Livros didáticos baseados em apostilas: como surgiram e por que foram amplamente adotados”, de onde tirei os trechos a seguir.

(…) Fundamentos da Física, cuja primeira edição teve como autores Francisco Ramalho Jr., Nicolau Gilberto Ferraro, Paulo Antônio de Toledo Soares e José Ivan Cardoso dos Santos e que, nas edições posteriores, manteve somente os três primeiros desses autores. (…) Lançado em 1975, em poucos anos atingiu um espetacular sucesso comercial, tornando-se campeão de vendagem nessa disciplina, posição que manteve durante décadas. Mas nada, à época do lançamento, indicava o êxito comercial que acabou se verificando. (…) O sucesso inicial do FF não teria sido resultado do trabalho de marketing de uma editora poderosa. Segundo o prof. Nicolau, ‘nós não tínhamos nem ideia de que o livro ia ter a adoção que teve’. O que aconteceu é que, simplesmente, os professores optaram por ele.

Segundo o prof. Nicolau, o FF baseou-se em grande parte nas aulas desenvolvidas no Curso Universitário. (…) Assim, a principal característica do livro foi a estruturação de cada seção na forma de uma breve explanação teórica centralizada nos aspectos matemáticos das leis físicas, nos moldes das apostilas dos cursinhos, seguida de exercícios resolvidos, exercícios propostos semelhantes aos resolvidos, para serem trabalhados pelo professor em sala de aula, e, finalmente, exercícios de recapitulação para o aluno estudar em casa. Tudo cuidadosamente planejado de forma a exercitar da forma mais eficiente possível a utilização das leis físicas ensinadas. O tratamento da Física foi feito quase que exclusivamente no plano algébrico.

(…) Outros professores de cursinhos apressaram-se em lançar livros seguindo o mesmo estilo (…), com o mesmo tipo de texto, a mesma estrutura, a mesma sequência de capítulos e o mesmo tipo de atividades propostas. (…) O FF funcionou como protótipo para toda uma geração de livros baseados em apostilas de cursinho, que acabaram definindo uma tendência majoritária no ensino de Física em nosso país.

(…) Com esse material, mesmo professores inexperientes conseguiam dar as aulas de forma mais ou menos satisfatória, pois estas vinham programadas na forma de sequências de exercícios, cuja solução o livro do mestre disponibilizava. (…) Uma proporção satisfatória de alunos conseguia bons resultados nas provas e nos exames finais, já que estes também seguiam o modelo repetitivo dos exercícios resolvidos em aula. (…) O processo acabava funcionando também como um treinamento para o próprio professor, que, uma vez bem sucedido numa aula, podia repeti-la nas outras turmas e nos anos seguintes. (…)

Essa história de sucesso, porém, recebeu desde sempre muitas críticas.

“[Esse tipo de livro] não apresenta referências históricas, não relaciona a Física com a vivência quotidiana, não traz aplicações tecnológicas, não aprofunda análises em casos particulares, nem aborda problemas mais elaborados. Quando refere-se a algum desses pontos, fato ocasional, fá-lo de modo muito superficial, uma vez que o esquema geral dessas obras é a apresentação conceitual voltada à resolução de exercícios, mais para a aplicação de fórmulas do que para outros aspectos e atividades integradoras com outras áreas e formas de raciocínio. (…)

O critério básico de inclusão de conteúdos era o de se prestar à formulação de exercícios de resposta unívoca, de forma a possibilitar um gabarito de respostas. Assim, foram excluídos do currículo aplicações práticas da Física, situações do cotidiano, qualquer atividade experimental, atividades que envolvessem interdisciplinaridade, e também a Física Moderna. (…)

Eliminou-se a figura do ‘problema’, (…) o que talvez seja a principal característica [dessas obras.] Um problema se diferencia de um exercício na medida em que, neste último caso, utilizamos mecanismos que nos levam, de forma imediata, à solução; o que não ocorre num problema, que é, de certa forma, uma situação nova ou diferente do que já foi aprendido, (…) para a qual não se tem um caminho rápido e direto que leve à solução, (…) [nem] procedimentos automáticos para solucioná-la.

Com isso, a disciplina se reduziu a (…) meros exercícios de aplicação de rotinas aprendidas por repetição e automatizadas, sem que o aluno saiba discernir o sentido do que está fazendo e, por conseguinte, sem que possa transferi-lo ou generalizá-lo de forma autônoma a situações novas, sejam cotidianas ou escolares. (…) Com esse tipo de ensino, o aluno pode até conseguir resolver exercícios, mas isso ocorre independentemente de compreender ou não o significado da Física aí presente. Essa técnica (…) pode ter sido uma solução para as deficiências [dos próprios] professores. (…) Esse tipo de manual didático viabiliza uma aula mesmo que o (…) professor não compreenda satisfatoriamente a Física, o que pode ter acontecido com frequência. (…)

O método proposto pelo FF foi praticado majoritariamente no Brasil durante décadas, através da adoção desse livro ou de outros na mesma linha. Isso significa que muitos de nossos professores mais experientes provavelmente aprenderam Física nessa perspectiva. (…) Dada a importância do livro didático na definição do currículo, isso significou também o fornecimento de um conjunto de práticas pedagógicas aos professores. A liderança de mercado do FF levou uma porção majoritária desses professores a adotar essas práticas, que foram transmitidas aos alunos, que mais tarde se tornaram professores, e assim por diante, até se tornarem naturalizadas. (…) Experiências que se repetiram durante anos e que foram adquiridas como algo óbvio, como algo natural, e que se converte em um verdadeiro obstáculo quando se pretende renovar o processo de ensino e aprendizagem. (…)”

Os FF evoluíram com o tempo, compensando, em alguma medida, esses problemas apontados. As últimas edições trouxeram várias leituras complementares sobre História da Física, aplicações tecnológicas e cotidianas, análises de fenômenos físicos peculiares, até mesmo propostas de atividades experimentais.

Mas, para os CDFs autodidatas, o principal defeito dos FF é que, como a história de sua origem deixa claro, eles foram pensados para atender às necessidades dos professores em sala de aula, não dos estudantes em casa! A exposição teórica é, por vezes, muito sucinta, e a resolução dos exercícios resolvidos, às vezes, muito esquemática. O livro foi pensado para servir mais como um complemento ou substituto do caderno de anotações, para recordar e reforçar o que os professores ensinaram durante as aulas, não para os alunos aprenderem os conteúdos sozinhos.

De modo a facilitar o estudo, eu elaborei uma “remontagem” da coleção inteira. Juntei todos os materiais complementares que pude encontrar de três edições, a oitava, a nona e a décima (o texto-base é desta última). São as leituras complementares, temas especiais, demonstrações, resoluções, exercícios extras. Só ficou de fora o Caderno de Revisão da versão Moderna Plus, que não consegui encontrar; mas um conjunto de “questões contextualizadas” no final serve como revisão geral da matéria.

Todos esses materiais foram encaixados nos devidos lugares onde são mencionados no texto principal, de modo que você não precisa avançar até o final do capítulo para ler os textos complementares, nem até o final do livro para consultar as resoluções dos exercícios. Você não vai encontrar essa versão em lugar nenhum da Internet, só aqui, no Guia do CDF!

5 comentários em “Os Fundamentos da Física na Estante do CDF”

  1. Opa, Serjão. O Robortella é tão bom assim? Estava usando o Física Clássica pelo embasamento teórico, mas vale a pena usar o Robortella para complemento ou o Tópicos de Física mesmo? Abraços

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    1. Olá, Tonho! Eu ainda não pude examinar a coleção do Robortella; então, sinceramente, não sei dizer.

      Se você já está usando a coleção de Sampaio e Calçada, continue com ela. A menos que seu estudo não esteja rendendo.

      Tópicos de Física traz explanações teóricas mais concisas, e grande quantidade de exercícios organizados em seções com níveis crescentes de dificuldade. Isso torna a coleção ótima pra se fazer uma revisão aprofundada da matéria. Mas nem tanto para um primeiro contato com a Física.

      Em suma, Física Clássica e Tópicos de Física, nesta ordem, é o que eu recomendaria para a maioria dos estudantes.

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