Como Estudar Ciências 1 ― Os Livros

18 comentários

O ensino das Ciências Naturais no Ensino Médio no Brasil sofre de três grandes problemas. O primeiro, e mais grave, é a quase absoluta ausência de aulas de laboratório nas escolas para realizar experiências. Estudar ciências é mais do que decorar princípios, nomenclaturas e fórmulas; é ver como essas coisas descrevem, de verdade, o que existe e o que acontece no mundo real.

Você pode gabaritar as provas de Física e Química do ITA, mas se você nunca realizou uma experiência simples de eletrólise, você não conhece a Física nem a Química. Você pode passar em primeiro lugar pro curso de Medicina da USP, mas se você nunca olhou uma célula de sua própria mucosa bucal num microscópio, você ainda não sabe o que é Biologia.

O segundo grande problema é o declinante rigor dos livros didáticos, com o passar das décadas. Os livros de ciências estão graficamente belíssimos, todos acompanhados de recursos multimídia. Mas o conteúdo está raso, os exercícios muito fáceis, e a apresentação dos assuntos antiquada, se compararmos essas obras com suas congêneres estrangeiras. Por exemplo, os livros de Biologia nacionais ainda trabalham com a velha taxonomia dos “cinco reinos” dos seres vivos, enquanto o paradigma vigente mundo afora é o dos “três domínios”.

O terceiro problema tem a ver com a interdependência conceitual entre as três ciências e a falta de sincronia entre os seus conteúdos programáticos. Isso fica mais evidente no primeiro ano do Ensino Médio. Pra entender as teorias atômicas e as propriedades das ligações e reações químicas, é necessário conhecer o básico de Eletromagnetismo, Radioatividade e Física Quântica, assuntos que só serão tratados nas aulas de Física no terceiro ano. Da mesma forma, um dos primeiros assuntos que se estuda em Biologia é a complexa bioquímica celular, mas a Química Orgânica necessária para entender plenamente os fenômenos bioquímicos só é ensinada nas aulas de Química no terceiro ano.

Não é de admirar que tantos alunos achem essas disciplinas incompreensíveis! Elas simplesmente não são ensinadas na sequência correta. Fazendo uma analogia com a Matemática, seria como ensinar potências e raízes antes de ensinar multiplicação e divisão.

Estudar essas disciplinas na sequência correta, porém, traz um quarto problema. Se toda a Física for estudada antes da Química, e toda a Química antes da Biologia, quando o estudante terminar a Biologia já terá esquecido a Física e a Química. Mas, para fazer o Enem e o Vestibular, o estudante precisa ter todo o conteúdo das três disciplinas bem fresco na memória. Como fazer, então?

O ideal seria estudar estas disciplinas em etapas sucessivas, da seguinte maneira:

  • numa primeira etapa, estuda-se somente a Física, toda ela;
  • numa segunda etapa, estuda-se toda a Química, ao mesmo tempo em que se revisa toda a Física;
  • numa terceira etapa, estuda-se toda a Biologia, ao mesmo tempo em que se revisa toda a Física (de novo) e toda a Química.

É claro que se deve dedicar mais tempo à segunda etapa que à primeira, e também mais à terceira. Também se deve aproveitar para aprofundar os assuntos, resolvendo exercícios mais difíceis, a cada revisão. Complicado? Sim, de fato! Mas eu elaborei um roteiro de estudo integrado dessas três disciplinas baseado nessa estratégia. Ele utiliza as coleções de livros descritas a seguir.

A coleção Fundamentos da Física, de Ramalho, Nicolau e Toledo, pela Editora Moderna, é a que definiu o padrão atual de livro didático de Física. A sequência de assuntos, a intercalação de pequenas partes da teoria com exercícios resolvidos e propostos, exercícios de recapitulação e testes ao final de cada capítulo, questões selecionadas de vestibulares de todo o país, leituras complementares, tudo isso foi introduzido por essa coleção, que continua como importante referência.

Mas os Fundamentos têm uma falha grave para quem estuda sozinho. A teoria e os exercícios resolvidos não dão base para resolver os exercícios mais difíceis. Porque a coleção foi feita para ser usada também em sala de aula, onde o estudante pode contar com as explicações do professor. Por isso, Fundamentos não é a melhor coleção para um contato inicial com a Física.

A coleção em três volumes de Física Clássica, de Sampaio e Calçada, pela Atual Editora, incorporada pela Editora Saraiva, tem as explicações teóricas mais acessíveis, e avança mais gradualmente na dificuldade dos exercícios. É a que eu recomendo para o estudante autodidata começar sua trajetória.

Já a coleção Tópicos de Física, de Newton, Helou e Gualter, também pela Editora Saraiva, tem teoria mais sucinta, e seções de exercícios separadas em quatro graus de dificuldade. É ótima para revisões, mas estudantes têm alguma dificuldade em aprender Física estudando só por ela.

O modelo de coleção de Física introduzido por Fundamentos, ao se tornar hegemônico, baniu do mercado editorial outras coleções muito boas, baseadas em outros modelos, que tinham virtudes ausentes nos livros atuais. Uma dessas coleções alternativas que se destacava era Física, em cinco volumes, de Adir Moysés Luiz e Sérgio Lins Gouveia, reeditada desde a década passada pela Editora Vestseller.

Física do Adir Moysés tem a teoria mais abrangente e aprofundada dentre todas as coleções disponíveis no mercado. Mas os exercícios são concentrados todos nos finais dos capítulos, depois de toda a teoria, e alguns capítulos são bastante extensos. É o oposto do modelo introduzido por Fundamentos do Ramalho! Isso dificulta para o estudante avançar paulatinamente nos conteúdos. Por isso, esta coleção é melhor pra uma revisão aprofundada da Física, quando o estudante já tem uma certa base.

Renato Brito, dono da Vestseller, lançou sua própria coleção de Física, mas que abrange somente a parte de Mecânica. São dois livros que trazem conteúdos exclusivos, não encontrados em nenhuma outra coleção de Ensino Médio, e que ensinam a resolver os problemas mais cabeludos. O professor Brito se inspirou no lendário Problemas Selecionados de Física Elementar (o “Saraeva”, sobrenome do autor russo), que é somente de exercícios, abrangendo toda a Física ― e também é publicado no Brasil pela Vestseller.

No caso de Química, as opções são mais limitadas. A referência em Química costumava ser a coleção de Ricardo Feltre, pela Editora Moderna, uma obra que fez pelos livros de Química o que Fundamentos fez pelos de Física. Infelizmente, depois de décadas de sucesso editorial, deixou de ser publicada. Por um tempo, Química na Abordagem do Cotidiano, de Francisco “Tito” Peruzzo e Eduardo Canto, tomou seu lugar. Muito abrangente na teoria, e com exercícios bastante variados, em diferentes graus de dificuldade. Mas a parceria entre os autores se desfez, e a coleção foi bastante diminuída em sua edição mais recente.

Mas a preparação com exercícios difíceis de Química, importante pra quem vai fazer Engenharia Química, Farmácia ou Medicina, só pode ser feita com livros como os Treinamentos em Química do Nelson Santos, que você encontra no site da Editora Vestseller.

Para Biologia, a coleção de referência há décadas é a de Amabis e Martho, pela Editora Moderna. Nenhuma outra coleção nacional tem qualquer coisa que ela não tenha. Além dela, pra quem vai disputar vagas em cursos muito concorridos de Medicina, tem o excelente Biologia de Campbell, de nível universitário, mas introdutório.

Tá, mas como estudar tudo isso? Em que sequência? Como intercalar? Como revisar? Aqui entra meu Roteiro de Física, Química e Biologia. Na postagem seguinte, eu explicarei como usá-lo.

18 comentários em “Como Estudar Ciências 1 ― Os Livros”

  1. Boa Tarde,Serjão! Não achei os cinco volumes da Física, , de Adir Moysés Luiz e Sérgio Lins Gouveia, o senhor tirou ?

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    1. Não, Henrique, eu nunca coloquei! Estes livros eu não tenho em PDF. Você pode comprá-los novos, da editora Vestseller, ou usados, de edições antigas (mas idênticas em conteúdo) em sebos online (como a Estante Virtual e a Traça).

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  2. Boa tarde, Serjão! Uma dúvida que tenho é o porquê de 2 edições do amabis e martho no roteiro. Lembro que dá última vez que li o texto havia uma explicação, se não me engano, não sei se houve atualização. Desde já, agradecimento ao conhecimento compartilhado

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    1. É pra uma edição servir pra revisar a outra, já que são ligeiramente diferentes nas explicações e, principalmente, nos exercícios.

      Você pode usar uma coleção de Biologia de outros autores, se quiser. Como a ordem dos assuntos é praticamente a mesma em todas as coleções, é só fazer a correspondência entre os capítulos e as seções, conforme os sumários das obras.

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  3. Olá, Serjão! Tudo bem? Primeiramente, parabéns por todo conteúdo e empenho no site, é incrível e já me ajudou muito. Em segundo lugar, os livros do arquivo do Química Feltre possuem erros em muitas páginas, existe a possubilidade de reupload dos arquivos sem esses erros?

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    1. Olá, Ronaldo! Que tipo de erros exatamente você encontrou? Páginas incompletas? Páginas faltando? Texto embaralhado? Imagens sobrepostas?

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      1. Imagens sobrepostas e textos ausentes. Um exemplo é logo no primeiro capítulo do volume II.

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  4. Opa, Serjão! Tudo bem? Como quero cursar Medicina, preciso de uma rigidez em Química e Biologia. Eu estava usando dois livros americanos de nível universitário porém com boa didática: o Biologia de Campbell e o Química: A Ciência Central (do Brown, LeMay e Bursten). Fiz isso por causa de alguns comentários sobre o “não-aprofundamento” que o Amabis e o Feltre têm para o nível exigido pelos vestibulares de Med. Sinceramente, sinto que estou me saindo até que bem, mas sempre tenho um pouco de receio se estou no caminho certo… Gostaria de saber sua opinião. Abraços!

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    1. Olá, Tonho! Corajoso você, hein? Encarar logo esses dois livrões! (Em conteúdo e tamanho.) Não é algo que eu recomendo. É bom começar com boas coleções, próprias para Ensino Médio, e depois avançar para eles, se sentir necessidade.

      Porque livros universitários são muito detalhados e aprofundados. E sem um embasamento prévio, você pode até entender os conteúdos, mas terá dificuldade em discernir os conceitos essenciais dos secundários. E aí, perde tempo precioso de estudo com coisas que não vão cair nas provas do Enem ou do vestibular, mesmo para os cursos mais concorridos de Medicina.

      Mas já que você começou com eles e está se saindo bem, segue adiante!

      Uma coisa que pode te ajudar a não se perder em miudezas são os *Guias do Estudante* (Student Guide) feitos especificamente para esses livros. São livros em brochura (capa flexível) que trazem resumos e diversas atividades para fixar os pontos principais em cada capítulo. Infelizmente, as editoras brasileiras não se dão ao trabalho de traduzi-los e lançá-los no mercado nacional. Quem quer precisa adquirir as versões originais e se virar no Inglês.

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  5. Olá! É aconselhável estudar a teoria por Física Clássica e somente fazer os exercícios do Tópicos de Física? Se não, qual é o seu conselho?

    obs: irei prestar a prep e tenho mais alguns anos para atingir a idade limite.

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    1. Esta é uma estratégia usada por muita gente. É útil e eficaz quando não se tem muito tempo de preparação. (Um ano, ou menos.)

      Já se você planeja dois ou mais anos de estudo, confira o meu roteiro de estudos integrado de Física, Química e Biologia em “Como Estudar Ciências Naturais 2 — Modo de Fazer”. E adapte o roteiro à sua necessidade.

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  6. Sobre o livro da Amabis, vale a pena estudar apenas pelo volume único? Pesquisei sobre ele na internet e há relatos falando que a versão de 3 volumes não é necessária.

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    1. Olá, Erich. Volumes únicos são, quase sempre, resumidos em relação aos correspondentes volumes separados. As coleções do Amabis são desse tipo. Quanto a ser ou não necessário, depende de *pra que*. Se você vai fazer Direito na Estácio, é provável

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    2. que o volume único do Amabis já seja demais. Se você vai tentar Medicina na USP, talvez os quatro volumes (o único mais os seriados) não sejam suficientes.

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  7. Serjão, o link para baixar a última edição do Feltre está ”furado”. Quando o link é aberto, aparece tudo em ”branco” e não carrega os arquivos.

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    1. Olá, Pedro. O link está funcionando; só que o arquivo é muito grande, e demora pra ser exibido. O melhor a fazer é você clicar na opção “baixar” que aparece no alto da tela em branco, quando abre o link.

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